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quarta-feira Vitória, 4 de novembro de 2026

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Educação · Dia dos Professores

Dia dos Professores: docentes relatam salas lotadas, agressões, falta de material e sensação de abandono

Professores de várias regiões do país contam como é a rotina nas escolas públicas. Pesquisas mostram perda de autoridade em sala e baixa satisfação com o salário

Professora em sala de aula de escola pública
No Dia dos Professores, celebrado nesta quinta-feira (15), docentes da rede pública de diferentes estados contaram ao portal g1 como é a rotina nas escolas. Os relatos têm um ponto em comum: profissionais que cuidam de dezenas de crianças e adolescentes, mas dizem não se sentir cuidados por ninguém.


Os professores entrevistados já tinham desabafado em comentários nas redes sociais do portal. Nenhum deles quer ser visto como vítima. O que demonstram é revolta com a distância entre a importância do trabalho e as condições em que precisam exercê-lo.


Salas superlotadas


A professora de inglês Janaína Jascone, de 43 anos, que dá aula na rede pública de Santo André (SP), conta que já teve uma turma com 49 adolescentes. Ela dá seis aulas em uma única manhã, cada uma com um ritmo diferente. Segundo Janaína, em um dia bom, consegue dedicar 15 dos 50 minutos ao conteúdo. O resto é gasto mediando conflitos.


Hudson Araújo, professor de história da rede estadual de Roraima, diz que o docente precisa ser também pai, psicólogo e assistente social em salas com 40 alunos, além de preencher plataformas digitais e cumprir metas.


Indisciplina e agressões


A pesquisa “O Estado do Professor Brasileiro”, do Instituto Casagrande, aponta que 93,4% dos professores dos anos iniciais do ensino fundamental se queixam da perda de autoridade em sala. Nos anos finais, estão os maiores índices de esgotamento, de conflito com as famílias e de intenção de deixar a profissão.


Leviston Silveira, professor da rede pública de Curitiba, diz que não há instrumentos para lidar com a indisciplina: o aluno é mandado para a coordenação e volta fazendo a mesma coisa.


Maria Luzia, que dava aula na educação infantil em Brasília, conta que levou um tapa no rosto de uma criança. Quando avisou a família, a mãe foi à escola e disse que ela tinha merecido. Maria, que tinha contrato temporário, deixou a sala de aula depois do nascimento do filho e diz que não se imagina mais voltando. Para ela, a escola virou um depósito e tudo o que dá errado é culpa do professor.


Hudson afirma ter medo de tratar de temas como nazismo, direitos das mulheres e religião, porque sente que tudo pode se voltar contra ele.


Dinheiro do próprio bolso


Leviston dá aula de ciências em uma escola sem laboratório, realidade de 80% das escolas públicas nos anos finais do ensino fundamental, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica, do Todos Pela Educação.


Janaína perdeu uma aula inteira porque nenhum cabo da escola funcionava para exibir os vídeos que os alunos tinham produzido. Maria comprou uma impressora para imprimir em cores o material de um aluno com deficiência, porque a escola não permitia. Ela diz que compra os livros que usa em sala.


Os professores também relatam falta de apoio para incluir alunos com deficiência, em turmas de mais de 30 estudantes sem auxiliar.


Salário baixo


O relatório Education at a Glance 2026, da OCDE, mostrou que só 22,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental no Brasil estão satisfeitos com o salário, um dos piores índices entre os países avaliados.


Hudson, que faz doutorado, diz que, mesmo com o título, vai ganhar o mesmo que um recém-formado de outra área, ou menos. Ele lembra que o trabalho continua fora da escola, com planejamento de aulas e correção de provas.


O que os professores pedem


cumprimento efetivo do piso salarial e salários equiparados aos de outras carreiras com ensino superior;

turmas menores;

mais autonomia pedagógica e menos dependência de plataformas digitais obrigatórias;

fim da aprovação automática de alunos;

maior participação das famílias;

apoio psicológico e médico para os docentes;

direitos garantidos para os contratados temporários;

infraestrutura básica, como carteiras, climatização e laboratórios.


Thiago Zola, diretor de educação da Mind Lab, empresa de educação socioemocional, afirma que, nas escolas que oferecem algum apoio de saúde mental, o benefício nunca inclui o professor.


Maria conta que escolheu a profissão por causa da professora que a alfabetizou e que ama o que fazia. Mas resume a sensação de muitos colegas: “Ninguém cuida da gente”.


Com informações do g1.

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