O presidente Donald Trump adotou sua primeira medida efetiva contra a Venezuela ao justificar o deslocamento de oito embarcações de guerra para o Caribe. Segundo o governo norte-americano, a operação teria neutralizado um navio ligado ao cartel Tren de Aragua, resultando na morte de 11 indivíduos identificados como integrantes de organizações terroristas.
A reação de Nicolás Maduro foi imediata: o mandatário venezuelano afirmou que o vídeo exibido por Trump não passaria de uma produção forjada por inteligência artificial. A declaração foi prontamente contestada pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, que assegurou que as imagens “não têm qualquer relação com IA”.
O episódio acirrou a retórica de ambos os lados. Trump reforçou o caráter de sua ofensiva antidrogas ao afirmar que “há muito mais por vir”. Maduro, por sua vez, recorreu ao discurso nacionalista, sustentando que Washington estaria “criando uma fábula” para encobrir seu real objetivo: “apropriar-se do petróleo venezuelano sem custos”.
A animosidade entre os dois governos não é recente. Durante seu primeiro mandato, Trump liderou o reconhecimento internacional de Juan Guaidó como presidente legítimo da Venezuela, movimento acompanhado por mais de 50 países, entre eles o Brasil e membros da União Europeia. A estratégia, entretanto, não obteve êxito: Maduro consolidou-se no poder, amparado em práticas autoritárias e em um processo eleitoral amplamente questionado pela oposição e por observadores internacionais, sem jamais apresentar documentação oficial que comprovasse a vitória que proclamou.
O retorno de Trump à Casa Branca, há oito meses, foi marcado por sinais de abertura seletiva. O enviado especial Richard Grenell foi recebido em Caracas e conseguiu negociar a libertação de seis cidadãos norte-americanos. Paralelamente, foram retomadas as operações da Chevron, suspensas durante o governo de Joe Biden.
No entanto, Trump também endureceu sua política migratória: revogou o Status de Proteção Temporária concedido a cerca de 600 mil venezuelanos residentes nos EUA e autorizou deportações, parte delas direcionadas para El Salvador.
O discurso mais agressivo pode ser explicado pela resistência da comunidade latina ligada ao eleitorado republicano a qualquer aproximação com o regime de Maduro. Nesse contexto, a associação do governo venezuelano ao narcotráfico, o envio de forças militares à região e a ampliação da recompensa por informações que levem à captura de Maduro — agora fixada em US$ 50 milhões — buscam reforçar a narrativa de enfrentamento.
Ainda assim, a hipótese de uma intervenção armada de maior escala ou de uma mudança de regime imediato, como sugerem setores da mídia ultraconservadora nos Estados Unidos, permanece improvável. Do mesmo modo, as declarações de Maduro sobre a mobilização de milicianos dispostos à resistência armada parecem mais voltadas à retórica política do que a um planejamento real. O histórico recente demonstra que nem Trump nem Maduro dão sinais de disposição para avançar a um confronto direto.














