Os advogados de defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus recorreram à literatura como recurso retórico em suas sustentações orais no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira (3), segundo dia do julgamento referente à acusação de tentativa de golpe de Estado.
Durante as manifestações, foram mencionados o poema “Em Linha Reta”, do português Fernando Pessoa (sob o heterônimo Álvaro de Campos), o épico “I-Juca-Pirama”, de Gonçalves Dias, e o célebre artigo “Eu acuso!”, de Émile Zola.
Citações literárias no julgamento
Autor: Gonçalves Dias
Obra: I-Juca-Pirama
Quem citou: Andrew Fernandes Farias, advogado do general Paulo Sérgio Nogueira
Contexto: O advogado evocou os versos de Gonçalves Dias para caracterizar o general como um “guerreiro do Nordeste”. Durante a sustentação, recitou: “Sou bravo, sou forte, sou filho do Norte; meu canto de morte, guerreiros, ouvi.”
Sobre a obra: Publicado em 1851, o poema épico-dramático narra a trajetória de redenção do protagonista perante seu pai e a tribo dos Timbiras. Para poupar o pai cego do sofrimento de perdê-lo, I-Juca-Pirama precisa provar sua bravura e recuperar a honra como guerreiro.
Autor: Fernando Pessoa (heterônimo Álvaro de Campos)
Obra: Poema em Linha Reta
Quem citou: Andrew Fernandes Farias, advogado do general Paulo Sérgio Nogueira
Contexto: O defensor utilizou a obra de Pessoa, que discorre sobre a imperfeição humana, para relativizar declarações críticas feitas por Nogueira ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em reunião ministerial de 2022, quando o general afirmou que a Comissão de Transparência das Eleições (CTE) “é para inglês ver”. O advogado classificou o episódio como “um momento de deselegância” e comparou seu cliente ao eu lírico do poema, que reconhece suas falhas.
Sobre a obra: Acredita-se que o poema tenha sido escrito entre 1914 e 1935. Nele, Álvaro de Campos critica a hipocrisia social e a falsa perfeição ostentada por aqueles que o cercam. O texto valoriza a sinceridade na exposição das próprias fragilidades em contraposição à vaidade e à ocultação de defeitos.
Autor: Émile Zola
Obra: Eu acuso! (artigo publicado em 1898)
Quem citou: Paulo Cunha Bueno, advogado do ex-presidente Jair Bolsonaro. O ministro Flávio Dino também fez referência ao autor em sua fala.
Contexto: A defesa de Bolsonaro argumentou que o julgamento possui natureza política e comparou o caso a uma “versão brasileira do Caso Dreyfus”. O episódio francês, ocorrido no final do século XIX, envolveu a condenação injusta do capitão Alfred Dreyfus, acusado de traição por supostamente repassar informações sigilosas à Alemanha. Posteriormente, descobriu-se que outro oficial era o verdadeiro responsável, e Dreyfus foi inocentado. O artigo de Zola teve papel fundamental na denúncia da manipulação do processo.
Sobre a obra: Publicado no jornal L’Aurore, o texto de Zola denunciava um erro judicial deliberado, acusando oficiais do Exército francês de acobertarem os verdadeiros culpados e conduzirem Dreyfus a uma condenação injusta.














